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Episódio 3

Uma loja com dois nomes

Em Viana do Castelo, há um estabelecimento que faz parte da memória da cidade. Manuela Paula e Luciana são os rostos da terceira "História de Quem dá Sorte".

Chama-se Papelaria Gomes Pereira, mas ninguém em Viana do Castelo a trata assim. “Acho que foi sempre conhecida como Loja da Esquina, talvez por estar aqui na esquininha da praça”, explica Manuela Paula, que ali trabalha há 25 ou 26 anos. É nessa esquina que a apresentadora Lara Afonso descobre um dos pontos de venda dos Jogos Santa Casa mais antigos do país, reconhecido como uma das “Lojas Memória” da cidade, um estatuto reservado a casas comerciais com pelo menos 50 anos da mesma atividade. 

A distinção não é coisa pouca. Viana do Castelo classificou 44 estabelecimentos como “Lojas Memória” e a Loja da Esquina ganhou o seu lugar enquanto retrato vivo do comércio tradicional. Instalada num edifício centenário, começou por ser um depósito de tabaco, depois um ponto de distribuição de jornais, até se consolidar como a papelaria que hoje conhecemos.  

Manuela recorda bem os primeiros tempos, quando as máquinas eram outras e o jogo também. “A máquina não tinha nada a ver com isto, era quase preciso dar à manivela para ela trabalhar. Só havia o Totobola e as lotarias, era basicamente isso que havia naquela altura.” Também os clientes eram “essencialmente homens, com uma certa idade, porque os jovens não ligavam.” 

Prémios que ficam 

Nem sempre a sorte se anuncia com festa e, quando sai um prémio maior, não há campainha nem sinal sonoro. “Nada, há um silêncio”, conta Manuela, sempre a primeira a ver o bilhete premiado. “Não vejo o valor, porque aquilo não dá o valor. A mensagem que eu transmito é que o cliente tem que se dirigir à Santa Casa para receber o prémio”, explica. 

Uma raspadinha, com um prémio pago em mensalidades, ficou-lhe guardada na memória. Saiu a um cliente antigo da casa, numa altura difícil da sua vida. “Estava numa situação um bocadinho complicada, veio mesmo a calhar. Tinha perdido o emprego, portanto foi bom”, recorda. Mais tarde, o mesmo cliente voltou à loja só para confidenciar quanto é que lhe tinha saído. 

Uma loja para todos 

Ao longo de tantos anos, a Loja da Esquina tornou-se mais do que um ponto de venda. É um lugar de encontro e cavaqueira, onde se comentam as notícias do dia e as novidades das revistas. Há clientes que já nem precisam de pedir o que querem, que “a gente já sabe”, diz Manuela.  

Para muitos, sobretudo os mais idosos e os que vivem sozinhos, a visita diária é uma forma de companhia. “Às vezes contam-nos um bocadinho da vida delas, aquilo que as aflige. Sobretudo pessoas com mais idade, um pouco sozinhas, que não têm família”, refere. 

Também há três amigos que aparecem sempre à mesma hora para jogar Placard, e cuja ausência não passa despercebida. “Quando não vêm, a gente já fica assim: onde é que eles se meteram?”  

Tratar os clientes pelo nome 

Luciana é a mais nova das duas funcionárias e, nas palavras de Manuela, quem tem mais jeito para a conversa. “A Luciana fala mais do que eu, tem mais essa comunicação com os clientes, essa empatia”, diz. Aqui tratam-se os clientes pelo nome, sabe-se de cor as preferências de cada um e há espaço para escutar: “Eles gostam de partilhar a história do dia a dia, gostam de conversar connosco.” Essa proximidade torna cada prémio mais do que um número. “Partilhamos a felicidade com o cliente. É bom sentir a emoção das pessoas quando ganham um grande prémio, às vezes até um pequenino”, confidencia  

Uma rede de confiança 

Manuela e Luciana protagonizam a terceira “Histórias de Quem dá Sorte”, uma iniciativa que, ao longo de vinte semanas, percorre o país à descoberta de quem, todos os dias, acompanha as emoções de quem tenta a sorte. Como em Viana do Castelo, cada história revela uma relação que vai além da venda de uma aposta: é feita de confiança, partilha e responsabilidade. 

À despedida, a mensagem que deixam aos clientes é simples: “Que continuem a vir, que se sintam bem aqui e que tenham muita sorte.”  

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