“Como está, menina?” É assim que Adão Lopes recebe a apresentadora Lara Afonso na Jogos Gazela, reservando o mesmo tom acolhedor para todos os que entram pela sua porta há mais de 30 anos. Nesta loja da Rua 5 de Outubro, em Ermesinde, no distrito do Porto, os clientes não são apenas apostadores: são vizinhos, conhecidos, quase família. É este laço, feito de décadas de proximidade, que a iniciativa “Histórias de Quem dá Sorte” vem mostrar, começando por quem está sempre atrás do balcão.
Aos fregueses já diz “olá, boa tarde, há 52 anos”, refere Adão Lopes com um sorriso. Na parede da agência, uma placa datada de 2012 recorda “40 anos de dedicação aos clientes e amigos” e, quando questionado sobre a primeira vez que começou a dar sorte às pessoas, a sua memória não hesita: “Lembro, lembro perfeitamente.”
É uma vida inteira de bons dias e boas tardes calorosos, de raspadinhas, cautelas da lotaria, totobola, euromilhões e outros bilhetes de apostas, de uma presença que se tornou, para muitos em Ermesinde, parte do quotidiano. Foi assim que Adão se tornou uma figura de confiança na comunidade, algo que Lucília Ferreira, cliente há mais de quatro décadas, resume com um toque de humor. “Eu moro aqui há 42 anos e já os conheço daqui e doutro lado, onde eles moravam. Eu vim atrás deles”, conta. “No outro era para lanchar e neste, como não há lanche, aposta-se.”
O prémio que nunca esqueceu
Entre tantos anos de casa aberta, há uma história que guarda com particular carinho. “Eu tomei conta da agência num dia 1 de abril, e no dia 7 ou 8 de junho dei 280 mil contos a um apostador”, recorda. O feliz contemplado mostrou-lhe o bilhete premiado num restaurante em frente à loja, mas pediu segredo. No dia seguinte, porém, tudo mudou. “Ele estava à minha espera e disse: já pode dizer a toda a gente porque o meu coração não aguentou”.
É este tipo de momento, entre a discrição pedida e a alegria que não se contém, que faz destas agências muito mais do que simples balcões de apostas, e de quem lá está verdadeiros guardiões de histórias que ficam para a vida.
Uma coleção com história
Além de vender sorte, Adão Lopes guarda-a. Num dossiê atrás de outro, são muitas as recordações. “Tenho as raspadinhas todas, desde a número um”, explica. “Raspo, vejo se tem prémio. Se não tem, ponho aqui. Estão aqui desde a número um até agora.”
A coleção não se fica pelas raspadinhas. Tem também anúncios antigos com o percurso completo dos vários modelos e um dossiê dedicado à lotaria clássica e popular, tudo organizado e catalogado desde 1974. “Sou colecionador desde pequenino, então achei uma coisa engraçada colecionar isto também”, diz, sobre um hábito que começou como curiosidade pessoal e se tornou, ao longo dos anos, um pequeno arquivo da própria história dos Jogos Santa Casa.
Sorte para dar e vender
O mediador e colecionador atribui a energia que o move à juventude de espírito que lhe assiste: “De corpo estou a ficar um bocado gasto, mas de cabeça continuo a andar sempre para a frente”, brinca. Sobre os anos ligado à rede de mediadores, fala apenas em bons termos. “É um prazer muito grande trabalhar com os Jogos Santa Casa. Tem sido um pessoal muito simpático. Temos dado uma parceria bem boa”, assegura.
Multiplicada por milhares de mediadores como ele, esta relação ilustra porque razão jogar nos Jogos Santa Casa é sempre um gesto que beneficia mais do que quem aposta e pode ganhar. Como refere Ricardo Lavos, diretor-geral do Departamento dos Jogos Santa Casa, “97% do valor das apostas regressa à sociedade sob a forma de prémios, impostos e financiamento a entidades que atuam na ação social, saúde, desporto e cultura em todo o país”.
Histórias que merecem ser contadas
Ao longo dos próximos meses, mais dezanove mediadores vão juntar-se a Adão nesta iniciativa. Todos os dias, em bairros, vilas e cidades do País, homens e mulheres como ele acompanham as emoções e as expectativas de quem arrisca uma aposta, celebram os pequenos e grandes prémios, e recordam sempre que jogar deve ser feito com responsabilidade. Mais do que uma transação, o gesto de tentar a sorte revela-se, através destes testemunhos, uma relação humana construída ao longo do tempo com a comunidade. “Histórias de Quem dá Sorte” é uma iniciativa da Medialivre em parceria com os Jogos Santa Casa que, ao longo de vinte semanas, dá voz a vinte histórias, vinte agências, vinte pessoas.
Na despedida, depois de uma conversa que atravessou memórias, prémios e um arquivo, fica a frase dita em uníssono por quem entrevista e por quem é entrevistado: “Temos sorte.”
Tenho as raspadinhas todas, desde a número um.
Adão Lopes