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Episódio 11

A sorte é de quem compra

Em plena Baixa de Lisboa, a Esfera da Sorte é uma referência com mais de oito décadas de vida. António Pereira e Dário Roque dão rosto à casa que protagoniza o décimo primeiro episódio de “Histórias de Quem dá Sorte”.

“São mais de 80 anos a dar sorte, e não é à toa que se chama Esfera da Sorte”, nota a apresentadora Lara Afonso à porta da histórica casa da Rua do Arsenal. Fundada em 1935, atravessou gerações e tornou-se parte da vida da Baixa lisboeta. António Pereira chegou como amigo da família e acabou por ficar; Dário Roque juntou-se em 1999. Dois rostos de uma tradição construída com confiança, proximidade e muitas histórias, entre Lotaria, Euromilhões, Totoloto, Raspadinha e outros Jogos Santa Casa. 

Tradição de mão em mão 

A Esfera da Sorte nasceu em 1935, quando Luís Augusto de Sousa abriu o negócio dedicado à venda de tabacos e papéis de fumar. Em 1942, tornou-se agente oficial dos jogos sociais da Santa Casa e, em 1955, passou a contar com a participação de Adelino da Costa Pereira, mantendo-se desde então ligada à mesma família. 

António conhece bem esse percurso: “Eu só trabalhei com a terceira geração, mas conheci bem a segunda e ainda conheci a primeira.” Chegou através da amizade com o então proprietário, “que me convidou para vir para aqui trabalhar e pronto, cá estou”. Seguiu-se Dário, que entrou em 1999, “e por cá continuo”, resume. 

Sorte à vista 

Há clientes que fazem da Esfera da Sorte um ritual que se prolonga há décadas, e Fernando Dias é um deles. “Eu já sou cliente para aí há 50 anos”, conta. “Tenho um número certo que é para manter até quando eu puder. Jogo todas as semanas com o mesmo número, há muitos anos.” Depois de alguns prémios ganhos, diz continuar à espera do “dia D para sair o grande”. 

São estas relações e os momentos que delas nascem que ficam na memória. António recorda uma pessoa de idade que ganhou a sorte grande com duas frações de lotaria e, quando voltou à loja, “deu-me uma gorjetazinha de 10 euritos e tal”, conta. 

Em 2022, um cliente foi contemplado com um prémio de dois milhões de euros na Lotaria, depois de levar um bilhete que outro apostador tivera na mão, mas acabou por deixar. Dário tinha fixado o número e, quando viu o resultado da extração, ligou-lhe e ouviu em primeira mão: “Tenho o prémio.” Aqui, notícias destas merecem uma celebração à altura, e a casa enche-se de confetes. 

Do papel ao clique 

Mais do que um local de trabalho, a Esfera da Sorte é “a minha vida”, confessa António. “Profissionalmente, foi o sítio que me marcou e fiquei cá estes anos todos.” Mudaram-se os tempos e mudou também a forma de trabalhar: “No meu tempo era assim: tínhamos de ir buscar a Lotaria, aquilo era pago logo no momento, tínhamos de entregar os prémios e entregar tudo preenchido.” Hoje, “a máquina faz tudo”. 

A tecnologia mudou os procedimentos, mas não a proximidade aos clientes nem a ligação à venda de lotarias aos vendedores ambulantes, os tradicionais “cauteleiros”. Quando questionado acerca do futuro, Dário resume o que espera em três palavras: “Tradição, confiança e continuidade.” 

Uma casa que faz parte da cidade 

A Esfera da Sorte mantém-se na Rua do Arsenal desde a fundação, numa zona marcada pela história de Lisboa. Foi ali que, na manhã de 25 de Abril de 1974, as forças revolucionárias comandadas por Salgueiro Maia enfrentaram tropas fiéis ao regime. Hoje, a casa integra o programa Lojas com História, que reconhece estabelecimentos de relevância histórica e cultural na cidade. No mesmo local e na mesma atividade há décadas, continua a fazer parte do dia a dia dos lisboetas. 

Quanto ao segredo do negócio, António indica-o com humor: “É dar sorte, não é?” E, quando Lara Afonso lhe pergunta se a sorte já lhe sorriu, responde sem hesitar: “Sem dúvida.” 

Histórias que merecem ser contadas 

António e Dário dão voz ao 11.º episódio de “Histórias de Quem dá Sorte”, iniciativa da Medialivre em parceria com os Jogos Santa Casa, que, ao longo de vinte semanas, dá a conhecer 20 mediadores e os percursos das suas lojas. 

Esta é uma casa com mais de 80 anos de portas abertas a acompanhar todos os que querem apostar. E, na parede da Esfera da Sorte, há uma frase que não mente: “A sorte é sempre de quem compra e não de quem vende.” 

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