Há casas que mudam de mãos, mas não perdem o nome nem o lugar na vida de uma cidade. O Kiosk Vidal é uma delas. Na Alameda da Liberdade, em Castelo Branco, o estabelecimento continua a receber diariamente quem chega pelo jornal, por uma aposta nos Jogos Santa Casa ou para uma conversa. “Ainda somos humanos”, diz Edite Barata, mediadora. É uma frase simples que traduz aquilo que nenhuma máquina consegue substituir: os laços entre quem está dentro e fora do balcão.
O Kiosk Vidal nasceu em 1963, com José Vidal. Mais de seis décadas depois, o apelido do fundador continua a identificar uma casa que atravessou diferentes fases do comércio tradicional e da própria cidade, e que mudou de proprietário ao longo do tempo sem nunca perder o nome.
A imprensa e a tabacaria estiveram na origem da atividade, mas os Jogos Santa Casa passaram a ocupar um lugar importante no negócio. Hoje, o estabelecimento também é conhecido como Casa da Sorte, depois de se ter juntado a este mediador histórico fundado em 1933.
Pelo balcão passam todas as idades e perfis de cliente. “Temos desde os mais pequenitos que vêm à procura das novidades nos brinquedos, até à pessoa de mais idade que ainda vem comprar o jornal, que vem fazer uma aposta”, refere Edite. E, numa era tão digital como a nossa, continua a ser um ponto de encontro para as pessoas da cidade, onde “há afetos que se criam”. “Apesar de tudo, a máquina não tem um sorriso pleno, não é? Criamos laços com quem nos cruzamos ao longo da vida”, sublinha a mediadora.
Histórias de felicidade
Ao longo dos anos, houve momentos que ficaram gravados na memória, como a da jovem que, numa manhã de sábado, veio ao balcão depois de jogar uma raspadinha de um euro que deu direito a um prémio de 10 mil euros. A cliente “ficou pálida, mudou de cor, não estava a acreditar que aquilo estava a acontecer” e, na sua incredulidade, perguntou se havia ali dinheiro para lhe pagar. “Pois, não, tem mesmo de ir à Santa Casa para que seja pago o prémio”, disse-lhe Edite.
Impossível de esquecer, também, foi o caso do cliente que quase desistiu de validar o bilhete. Ia já a sair da loja quando Edite insistiu: “Deixe cá ver, que eu passo aqui na máquina.” Tinha 750 euros.
Durante a pandemia, foi a vez de uma senhora mais idosa ver o sonho tornar-se realidade, com o Euromilhões. “Quando fomos tirar os resultados, tinha lá o segundo prémio, com mais de dois milhões de euros”. Com a loja cheia, dar a notícia exigiu cuidado redobrado; “a gente tentava explicar, mas tínhamos que ser discretos”, recorda a mediadora.
O direito ao anonimato
Para Edite, ser discreto não é opcional, é uma regra da profissão. “Nós temos de manter a discrição, o cliente tem direito ao anonimato e não podemos dar a entender que está ali alguém com a sorte grande. Portanto, é o cliente que decide”, informa. Nem por isso faltam momentos de pura alegria e até já viu clientes “aos saltinhos” de contentamento.
À despedida, a mensagem de Edite para quem já passou, e para quem ainda vai passar, pelo estabelecimento, é simples: “Obrigada por fazerem parte do Kiosk Vidal Casa da Sorte.”
Uma rede feita de pessoas
Edite Barata é o décimo rosto da iniciativa “Histórias de Quem dá Sorte”, uma parceria entre a Medialivre e os Jogos Santa Casa que, ao longo de vinte semanas, percorre o país. Os Jogos Santa Casa contam atualmente com cerca de 5.000 pontos de venda em Portugal, e em 2024 pagaram aos mediadores remunerações no valor recorde de 247,9 milhões de euros, com impacto direto nas economias locais e no emprego, já que a maioria destes mediadores são pequenos negócios familiares.
Estes números ganham ainda mais significado nos lugares concretos que são ponto de encontro e fazem parte do dia a dia das comunidades, como o Kiosk Vidal, em Castelo Branco. Aqui, o jogo já transformou várias vidas e continua a escrever novas páginas na história quase centenária da Casa da Sorte.