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Episódio 12

Campião da sorte

Há 186 anos na Baixa de Lisboa, nenhum mediador dos Jogos Santa Casa tem mais história em Portugal do que a Campião, também reconhecida como a casa de lotarias mais antiga no mundo. É o décimo segundo episódio de “Histórias de Quem dá Sorte”.

Antes da Primeira República, antes do 25 de Abril, já a Campião vendia sorte junto à Praça da Figueira, em Lisboa. “Isto é que é uma entrada à campeão!”, brinca a apresentadora Lara Afonso à porta daquela que também é a casa de venda de lotarias mais antiga do mundo, digna de menção no Guiness Book of World Records. Foi nesse espaço centenário, entre cautelas antigas e raspadinhas recentes, que Vasco de Mello, mediador e membro da família que a gere desde 1902, nos contou a história de uma empresa que perdura sem mudar de nome nem de lugar. 

A herança de um nome 

“Estamos aqui há 186 anos”, resume Vasco de Mello. A história da Campião começa em 1840, quando o fundador, Pedro José Campião, comerciante natural de Tomar, abre uma casa de câmbios em Lisboa. Nascia assim um negócio como outros da época. “Nós temos cautelas de 1848 e de 1843 emitidas por nós. É um património”, conta Vasco de Mello, que junta a esse arquivo uma coleção de lotarias e raspadinhas estrangeiras, entre as quais, uma raspadinha chinesa. 

Esse património também é familiar. Nos finais do século XIX, o negócio passa para um empregado, tio-bisavô do atual mediador, que mais tarde se associa ao irmão, bisavô de Vasco de Mello, dando origem à sociedade que já vai na quarta geração. Há cerca de seis anos, a loja original, que ficava na porta ao lado, deu lugar ao estabelecimento atual, o que, para uma empresa familiar, “teve um significado muito grande, que é não sair do mesmo sítio onde a empresa foi fundada”, sublinha. 

De Lisboa ao Funchal 

A Rua do Amparo continua a ser o centro da Campião, mas está longe de ser o único endereço. “Já temos esta [em Lisboa], temos em Santarém, no Porto, em Setúbal e no Funchal”, enumera o mediador, referindo ainda a abertura mais recente de uma loja em Cascais. Hoje, a Campião soma 17 lojas espalhadas por Portugal continental e pela Madeira e é um dos maiores mediadores de jogos sociais do País, tanto em volume de negócio como em número de pontos de venda. 

Foi precisamente na loja do Funchal que aconteceu uma das histórias que Vasco de Mello guarda com grande carinho. “O prémio que mais alegria me deu foi muito curioso”, recorda, sobre um sorteio do Loto 2 realizado numa segunda-feira de 2010, dias depois de as grandes cheias terem devastado a cidade. O prémio coube precisamente à loja da Campião no Funchal: “Não foi o maior – porque o maior prémio que demos foi um Euromilhões de 10 milhões de euros –, mas este foi talvez o que mais marcou.” E são muitas as memórias antigas, desde o tempo do seu pai, como a de um cliente que, ao receber um prémio, confessou ao balcão: “Olha, meu filho, esta já é a quinta vez, três das quais na tua casa”; ou a de um apostador casado com uma espanhola que, no mesmo Natal, viu sair a Sorte Grande em Portugal e o El Gordo em Espanha. 

Segredos do ofício 

Capaz de se adaptar aos tempos, a Campião foi pioneira dos jogos online em Portugal, ao inaugurar em 1997 um serviço que permitia apostar na Internet. Questionado sobre que conselho deixaria a quem começa agora a trabalhar como mediador dos Jogos Santa Casa, Vasco de Mello não hesita: “Paciência. E o voto de confiança. Os apostadores têm de confiar. Nós somos os mandatários dos apostadores, junto da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.” Essa confiança também assenta no facto de o negócio servir uma causa maior, cujas receitas revertem para causas sociais em todo o País. 

Uma rede que não para de crescer 

A Campião nasceu quando a Lotaria Nacional dava os primeiros passos em Portugal. Hoje, partilha o País com uma rede de cerca de 5.000 mediadores dos Jogos Santa Casa, na maioria micro, pequenas e médias empresas que, no conjunto, sustentam milhares de postos de trabalho diretos. É também através desta rede que a quase totalidade do que se aposta regressa à sociedade: 97% do valor jogado reverte para prémios e para causas sociais nas áreas da saúde, da solidariedade, do desporto e da cultura. Nessa rede em expansão, a Campião ocupa um lugar único: o do primeiro capítulo de uma história que, 186 anos depois, continua a dar sorte. 

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